A direita se defende da forma que melhor conhece: pela censura. Ou “Por que a Veja não aprovou meu comentário?”

Enquanto Aécio Neves tenta calar seus críticos na base do mandado de busca e apreensão e da censura de sites de busca e redes sociais, a revista Veja parece manter seu portal livre de comentários negativos através de uma moderação no mínimo duvidosa. A direita vocifera por liberdade de imprensa, mas na verdade quer amordaçar, a todo custo, qualquer um que pense diferente.

Sempre achei desproporcional a quantidade de comentários positivos nos blogs e colunas dos “articuladores” mais populares da revista Veja, quando comparada com o número de posicionamentos críticos. Apesar de saber que esse tipo de sítio é frequentado majoritariamente por internautas que concordam com a linha editorial, eu costumava imaginar que pessoas com ideologia contrária, como eu, de vez em quando passassem por ali, se irritassem, e acabassem fazendo um comentário ou outro – mais por revolta ou impulso, do que por algum motivo mais nobre. Ainda assim, posições críticas sempre rarearam nesse ambiente.

Depois de alguns anos acompanhando de longe os ídolos da direita brasileira e seus seguidores, chegou finalmente a minha vez de “não resistir”. E eu confesso: postei um comentário no portal da revista Veja. É, amigos, para tudo existe uma primeira vez. Escrito e publicado esta sexta-feira (25) por Reinaldo Azevedo, o texto que me despertou a coragem para isso foi elaborado como resposta ao colunista da Folha de S. Paulo, Guilherme Boulos. Boulos abordou em sua brilhante coluna desta quinta (24) o que ele chamou de “direita delirante”, referindo-se diversas vezes a Azevedo.

Como faz com frequência, o jornalista da Veja respondeu com um texto em que tenta desconstruir os argumentos de Boulos, trecho por trecho. O resultado, a meu ver constrangedor, foi um discurso raivoso, infantilizado e delirante, que acabou por provar o ponto de vista do colunista da Folha: os porta-vozes da direita realmente perderam a mão. Sobre o texto de Azevedo, postei, portanto, o seguinte comentário no sítio da Veja:

“Esse texto infantil e terrivelmente enfadonho teve como único mérito ratificar todas as colocações do colunista da Folha. Ironicamente, os delírios e obsessões apontadas por Boulos ficam claras nessa réplica, e mostram a incapacidade de Reinaldo Azevedo em construir qualquer linha de raciocínio sem se apoiar em menções aleatórias e indiscriminadas ao PT, e sem partir pra baixaria, com direito a xingamentos e ataques pessoais mal colocados (algo parecido com chamar seu oponente de ‘gordo’ ou ‘burro’ em uma discussão sobre política, por exemplo, como forma de atacá-lo e desqualificá-lo, no lugar de utilizar argumentos relacionados ao assunto debatido). Algumas partes soam como pura birra, dignas de uma criança de sete anos. Lamentável. É, ‘a direita brasileira já foi melhor’.”

Surpresa ou não, o fato é que o comentário não foi aceito pela moderação do site, enquanto centenas de opiniões favoráveis ao texto, grande parte delas agressiva, foram aceitas e agora aparecem ratificando integralmente a opinião do colunista, sem que exista qualquer contraponto ou possibilidade real de debate a respeito do tema pelos leitores do portal. Mas, pensando bem, debate pra que, quando o objetivo não é promover a discussão saudável, mas sim impor uma posição, alimentando o ódio e a intolerância contra os “inimigos criados pela política editorial”?

E, afinal, o que isso é se não um sintoma do que já estamos cansados de saber? A direita sempre teve o costume de ser intolerante com seus “adversários”. Entre a argumentação e a força bruta, preferem a segunda opção. Não é à toa que o presidenciável do PSDB, Aécio Neves, prefere invadir a casa de uma jornalista – que é, acima de tudo, uma cidadã – em busca de um motivo para processá-la, numa tentativa de calá-la, do que receber e tentar rebater as críticas supostamente proferidas por ela (críticas estas que ele preferiu apelidar de “comentários difamatórios”). Se quisermos um exemplo mais contundente do que esse, temos 20 anos de ditadura para demonstrar que o debate não é exatamente a primeira opção dessas correntes ideológicas.

Correntes que, hoje em dia, falam com pompa sobre liberdade de imprensa e expressão, acusam o atual governo federal de promover a censura dos veículos de comunicação – quando, contraditoriamente, esses veículos trabalham claramente em força-tarefa para expor as falhas deste mesmo governo –, mas são, na prática, incapazes de conviver com opiniões diferentes das suas próprias.

E quem quiser usar aqui a técnica do “tu quoque” (“você também”), tire a prova entrando em um site ou blog tipicamente “esquerdista” ou “sujo”, como alguns gostam de chamá-los, e veja quantas opiniões contrárias à posição editorial do veículo estampam as suas páginas. Os “esquerdopatas”, “petralhas”, “comunistas”, ou como quer que desejem apelidá-los, têm as suas convicções; mas podem ter certeza que eles lhes darão espaço para expor as suas.

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