Do que o Brasil tem medo?

É impressionante e desanimador observar como as mudanças sociais ocorridas nos últimos 12 anos não parecem ter trazido uma perspectiva otimista em relação ao futuro e à ideia de “mudança”. Pelo contrário: o brasileiro está mais conservador – e isso pode ser facilmente constatado pela quantidade de políticos reacionários completamente malucos eleitos esse ano.

Aqui no Distrito Federal, a situação é desanimadora, com apenas um parlamentar realmente progressista eleito no universo das oito cadeiras que detemos na Câmara dos Deputados. Quando olho à minha volta, o cálculo não fecha, porque não vejo meus conterrâneos como um bando de reacionários bitolados, mas, ao mesmo tempo, tivemos o candidato Fraga (DEM), que defende armar a população e chama cadeias de “colônias de férias”, como o mais votado aqui no DF para a Câmara federal.

Esse fato, sozinho, mostra uma expressiva resistência à mudança por parte do eleitor da capital federal, e resume a aversão do brasiliense a uma possível renovação na maneira de encarar e gerir a segurança pública – talvez uma forma mais humanizada e pautada pela ressocialização.

Ainda no DF, escolhemos para senador, em primeiro turno, o candidato Reguffe, deputado federal pelo PDT famoso (unicamente) por sua honestidade, mas que defende bandeiras como a redução da carga tributária e apoia a redução da maioridade penal. Também é contra a legalização do aborto, a descriminalização da maconha e o casamento gay, três pautas atuais que servem quase como termômetro para medir o quão progressista é um candidato.

Todos os candidatos a senador no DF que apoiaram essas causas receberam, juntos, 1,84% dos votos, contra os 57,61% de Reguffe. Mais uma vez, rejeitamos a mudança e optamos pelo mais que manjado discurso demagógico e vazio anticorrupção que, sozinho, não concretiza nada.

Em São Paulo, a situação ficou ainda pior, pois o resultado das eleições foi quase 100% desastroso e mostrou como muitos paulistas, de todas as classes sociais, ainda mantêm um pensamento aristocrático, quase colonial, de manutenção da ordem vigente. Como é possível enxergar desejo de mudança real na reeleição do conservador Geraldo Alckmin por quase 60% dos eleitores do estado?

No Senado, acabou dando José Serra, e, na Câmara dos Deputados, Marco Feliciano, um fanático religioso, foi o terceiro mais votado. No Rio de Janeiro, o nome Jair Bolsonaro (o mais votado no estado para deputado federal) dispensa comentários. Como resultado geral das eleições para a Câmara dos Deputados, teremos, nos próximos quatro anos, a composição mais conservadora desde 1964.

Acompanhar os números da eleição presidencial também foi cruel, porque aí fica ainda mais escancarada a resistência nacional a um processo contínuo de mudança.

Em tempo: mudança não é trocar a legenda do governo – colocar um presidente Fulano no lugar de Ciclano – e sim promover uma gradativa (ou abrupta, em alguns casos) reestruturação da sociedade, com redistribuição do poder, recursos, meios de produção e direitos. Assim, tornar nossa sociedade mais desigual, injusta, tradicional, machista, homofóbica e racista não é, em hipótese alguma, mudar, pois se estará apenas reforçando uma triste realidade histórica.

Em primeiro lugar, partidos e candidatos com ideias progressistas mais radicais e com potencial para abalar a estrutura social brasileira, como Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV), têm pouco espaço na política. Nessas eleições, os dois candidatos tiveram desempenho sofrível, apesar da boa performance nos debates.

Luciana conseguiu 1,55% dos votos – para os mais otimistas, quase uma “vitória” – e Eduardo Jorge, que ganhou destaque ao longo da campanha pela simplicidade e simpatia, acabou ficando atrás até do Pastor Everaldo (outro que acha bonito impor seus dogmas religiosos ao próximo).

Já os partidos ditos “nanicos” da extrema esquerda, assentados em ideais revolucionários utópicos (que não deixam de ser interessantes), ficaram, juntos, com 0,21%. Esses números mostram que não estamos prontos para mudanças estruturais profundas; só, talvez, para uma transição lenta e gradual.

E foi isso que o PT fez ao longo desses 12 anos, depois de três derrotas tentando convencer o país a arriscar algo novo. Aos poucos, algumas mudanças começaram a ser implementadas: uma leve redistribuição de renda por meio de programas sociais; relativa democratização do ensino superior através de cotas e financiamento; expansão do ensino técnico; investimentos mais direcionados na saúde, como em medicamentos gratuitos de fácil acesso e médicos que trabalham de verdade.

Não é nem de longe o ideal, e sabemos que muitos antigos militantes se voltaram a outras legendas por considerarem que o PT se aliou ao que há de pior na política brasileira, aprendendo a conviver com os privilégios de poucos, ao invés de combatê-los.

Todas essas mudanças foram demasiado lentas – mas foram mudanças. Pela primeira vez tivemos um governo que não governou apenas para os ricos; que, apesar de conviver com ruralistas, fundamentalistas religiosos, oligopólios dos meios de comunicação e interesses econômicos escrotos de toda sorte, se voltou também para o trabalhador pobre, para o miserável, para o “marginal”, o discriminado, e ofereceu a eles a possibilidade de melhoria gradativa, mas real.

É de se imaginar que R$ 70 de Bolsa-Família, vagas reservadas na universidade e o reajuste anual do salário mínimo não sejam considerados mudanças revolucionárias – porque realmente não o são. Mas não foi o que aconteceu; e, agora, 12 anos após o início desse processo, estamos experimentando uma reação acumulada a essas medidas que ousaram mexer com o establishment.

É uma reação violenta e contagiosa, que, em tempos de revolução informacional e com estímulo da imprensa golpista, se espalha de forma virulenta por todas classes, e também por diversas áreas da vida humana, como raça, gênero, sexualidade e classe.

Essa reação trouxe de novo o medo de continuar mudando e a negação cega das melhorias obtidas; agora, uma parcela da população acha que a melhor opção é retroceder para um terreno conhecido, usando fórmulas fracassadas para garantir que “o Brasil volte a crescer”.

Os inesperados 33,55% de Aécio no primeiro turno, ao lado dos 21,32% de Marina, mostram isso: o PT “forçou a barra”, e, depois de 12 anos de algumas mudanças, o incômodo chegou ao limite máximo para a parte da sociedade que não se sente beneficiada pelos programas sociais e está ainda tão romanticamente ligada ao passado dos “privilégios exclusivos”.

Agora, faltam menos de três semanas para decidirmos o nosso destino: vamos trocar a mudança pelo retrocesso, ou seguiremos caminhando sem medo em direção às revoluções estruturais de que o país tanto precisa?

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s