Minha opinião sobre a eleição presidencial de 2014

Algumas pessoas disseram que “não vão sentir falta dessas eleições”, que “essas eleições não vão deixar saudade”, que “foram horríveis e assustadoras”. Não concordo completamente. O pleito desse ano foi muito importante – clareou muita coisa, impactou na politização da sociedade, expôs temas polêmicos, uniu forças, e, se tudo der certo, marcou a mudança na forma de governar do PT, partido em que ainda acredito, apesar de todos os seus problemas e limitações.

Na luta por uma sociedade mais justa, o conflito será sempre inevitável e necessário; a polarização e o radicalismo momentâneos sempre existirão, e servirão para definir melhor as posições de cada lado, colocar os pingos nos “is” e unir pessoas em torno de ideais. As mudanças e a redução de privilégios serão sempre seguidas de resistência e reações violentas.

A agressividade do processo eleitoral deste ano apenas evidenciou esse conflito, reforçado pela campanha midiática ostensiva das empresas que controlam a informação no país – controlam ou controlavam, pois, esse ano, o cerco histórico foi furado pelas redes sociais, outra grande realização do pleito alucinante de 2014.

Nessa campanha eleitoral, o tempo adquiriu nova dimensão, quando qualquer declaração descuidada passou a ser difundida e contestada em tempo real, simultaneamente, por milhares de pessoas. O que a imprensa antes ocultava e moldava conforme seus próprios interesses passou a ser evidenciado e viralizado, sem respeito a qualquer limite territorial. O que esses mesmos veículos informavam era confrontado com outras fontes, informações, interpretações – e até mesmo com publicações antigas dos próprios conglomerados midiáticos.

Ideologias passaram a ser disseminadas, posicionamentos foram desconstruídos, mentiras foram criadas e desmascaradas. Sem a “militância virtual”, e considerando o esforço da mídia em eleger seu candidato, não acho que o PT teria ganhado essa eleição; e esse fato, sozinho, já torna essa disputa uma das mais revolucionárias dos últimos anos no país.

Também vem sendo dito que essas eleições provocaram uma onda reacionária, tornando os cidadãos mais preconceituosos, racistas, elitistas, classistas. Eu não concordo: o pensamento conservador sempre esteve aí, ora evidente, ora adormecido. Um processo eleitoral não é capaz de criar uma orientação ideológica do nada, ainda que a pressão midiática tenha estimulado o extremismo de direita e o antipetismo. Ideologia decorre da formação social e cultural de um país; ela expressa anos de acumulação – uma bagagem realmente considerável – e não se forma de uma hora pra outra.

A eleição presidencial, portanto, não tornou a sociedade mais reacionária; apenas expôs esse lado feio que sempre existiu por aqui de forma silenciosa, impregnado em nosso dia a dia. Esse lado que existe em cada destrato praticado pela patroa para com a empregada doméstica; em cada brado contra as cotas sociais e raciais sob o pretexto de uma suposta meritocracia; em cada crítica infundada ao Bolsa-Família, e em várias outras atitudes banais com as quais aprendemos a conviver.

Esse afloramento de ideias reacionárias e agressivas estimulado pelo clima eleitoral pode trazer consequências assustadoras no curto prazo, mas, no longo prazo, é importante e útil, pois é através dele que identificamos com mais clareza os nossos fantasmas. Por causa da expressão escancarada desses preconceitos, as esquerdas se uniram mais forte nessas eleições, deixando de lado questões partidárias, ressentimentos e discordâncias metodológicas.

Nas ruas e nas redes, militantes, simpatizantes, porta-vozes, blogueiros, todos se uniram em torno de um objetivo comum: garantir a vitória do amor sobre o ódio, da tolerância sobre o preconceito, da solidariedade sobre o egoísmo, da igualdade social sobre os privilégios. A militância do PT voltou a tomar as ruas, colorindo as cidades de vermelho como há muitos anos não se via. Simpatizantes do partido passaram a defender a presidente com argumentos informados, desconstruindo discursos difamatórios e entrando em um embate virtual pelos trending topics das redes sociais.

Essa união entre as forças progressistas pode, quem sabe, dar um novo ânimo ao governo do PT, aproximando-o daqueles que realmente o colocaram na presidência pela quarta vez consecutiva. Na véspera das eleições, escrevi:

Se Dilma for reeleita, deverá isso à sua militância e aos movimentos sociais de esquerda, que realizaram um excelente trabalho nas ruas e no mundo virtual.

Nas redes sociais, blogueiros progressistas, eleitores já decididos, grupos de esquerda e representantes de minorias fizeram a melhor campanha de todas, mostrando seu apoio à continuidade do governo do PT e desconstruindo sistematicamente o candidato frágil que é Aécio Neves e o projeto retrógrado que é o do PSDB.

Nas ruas, militantes apoiaram com o corpo e o coração a candidata, lotando seus comícios e agitando, incansavelmente, bandeiras pelas cidades brasileiras. E até quem se diz neutro, como o PSOL, passou a apoiar, por meio de vários dos seus porta-vozes e eleitores, a reeleição da atual presidente.

E é por tudo isso que, nesse (possível) próximo mandato, Dilma precisa olhar para essas pessoas e movimentos. Precisa ser sensível a seus pleitos, batalhando, de verdade, por aqueles que a elegeram e depositaram nela todas as suas fichas.

Chegou a hora de o PT voltar às origens e lutar pelas bandeiras de esquerda, ainda que isso signifique desagradar algumas pessoas e bater de frente com o Congresso conservador que, infelizmente, elegemos para esse próximo mandato.

Estou confiante de que isso pode acontecer. Da antiga polarização entre PT e PSDB, passamos para a polarização entre esquerda e direita, e, pra mim, isso foi o que diferenciou essas eleições das anteriores.

Rumo à vitória, companheiros. Os próximos quatro anos podem ser muito bons. Só o tempo dirá.

O primeiro passo já foi dado.

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