“Casa do povo”. Só que não.

É muito triste perceber que nosso destino é mera moeda de troca nesse jogo de birras, vingancinhas, ressentimentos e interesses que se desenrola no Congresso Nacional. Isso sempre foi evidente, mas fica cada vez mais escancarado agora que temos uma oposição amargando a quarta derrota consecutiva nas urnas presidenciais e uma base aliada rebelde sentindo que pode controlar o governo. Tudo – absolutamente tudo – que se aprova ou rejeita nas duas Casas são isso, e somente isso: retaliação, demonstração de poder ou favor a ser cobrado mais tarde. Mas e o povo? “Ah, o povo que se foda, oras!”.

No início do mês, quase conseguiram derrubar um veto da Presidenta Dilma a subsídios para grandes empresas no Nordeste, o que oneraria o Tesouro em R$ 5 bi. Motivo: os presidentes das duas casas estão revoltados – vejam só – por terem aparecido na lista da Lava Jato, e acham que Dilma devia ter intervindo para evitar (leia-se: “acobertar”). Fizeram isso pra se vingar. O mais inacreditável é a naturalidade com a qual se encara isso – o assunto tá na mídia e os parlamentares nem ligam. Afinal, o que tem de mais em querer que a Presidente do país use de “jeitinho” pra livrá-los de investigação criminal?

Também ontem nossos digníssimos representantes transformaram o homicídio de policiais e militares (sim, militares) em crime hediondo. Não sei quanto a vocês, mas eu acho isso um assunto muito sério (e estranho). Cadê o debate com a sociedade? No mínimo, estamos diante de uma medida que tem como objetivo criar mais proteção para um lado que, constantemente, é o opressor e pratica excessos. “Bora tornar mais intocáveis autoridades armadas inseridas em ambientes corrompidos que têm o monopólio da violência de Estado”? “Bora”! Não vi esse assunto na mídia e não acho que as pessoas tenham sido consultadas quanto a isso, nem em enquete besta do site do Senado – eu, sinceramente, nem sabia que esse projeto existia. Afinal de contas, quais são as nossas prioridades?

[Isso ocorreu logo após o feminicídio ser tipificado como crime hediondo. Soou até como uma ofensiva a medidas destinadas a defender minorias e segmentos oprimidos. “Ah, é? As vadias querem que “assassinar mulher por ela ser mulher” seja um crime assim, todo especial? Então tá. Pois agora matar policial também é”. Bolsonaro deve estar que nem pinto no lixo.]

Mas essa semana dois senadores ultrapassaram todos os limites do egoísmo e da indiferença quanto aos interesses da população brasileira. Cássio Cunha Lima e Aloysio Nunes, ambos do PSDB, resolveram submeter um projeto de decreto legislativo com o objetivo de invalidar a cooperação que permitiu trazer mais de 11 mil médicos cubanos ao Brasil para atenderem populações carentes.

Tá, eu até entendo ter a cara de pau de melar o ajuste fiscal da Presidenta dando prejuízo aos cofres públicos, querer ter a cara livrada da Lava Jato e priorizar projetos de defesa dos integrantes das forças bélicas e repressivas do Estado – tudo isso era esperado desse Congresso sensacional que elegemos ano passado. Mas confiscar, de 63 milhões de brasileiros, o atendimento dos únicos médicos que se indignaram a chegar até eles é cruel e desumano. Uma ideia, senadores: que tal fazermos disso crime hediondo?

O Congresso Nacional carece de ideias, de ideologia verdadeira, de empatia para com as pessoas que dele dependem para se fazer representar na esfera pública. Em debates que se resumem a bate-boca entre parlamentares com interesses eleitorais e pessoais conflitantes, o interesse público fica apagado, esquecido. Que tipo de sociedade queremos construir, quais medidas precisamos tomar para tornar nosso país mais justo, sustentável e solidário – tudo isso é absolutamente irrelevante. Já tivemos inúmeras demonstrações disso.

Em nome da rivalidade política, os senadores Aloyísio Nunes e Cássio Cunha Lima não se importam de ter sangue em suas mãos, desde que isso signifique acabar com um dos “programas-vitrine” do governo de seu adversário. Nossos parlamentares vivem em um mundo à parte, onde só existem eles mesmos, seus próprios umbigos, e talvez suas esposas, que por pouco não passaram a ter suas passagens pra Miami pagas com dinheiro público. Cid Gomes tem razão: “são achacadores”!

Atualização em 10/04/2015:

O parlamento continua suas estripulias. A “casa do povo” aprovou ontem o que o sociólogo do trabalho Ruy Braga chamou de “a maior derrota popular desde o Golpe de 64”: o PL da terceirização. Supimpa. Somemos a isso a aprovação da PEC da redução da maioridade penal pela CCJ. Mais alguém aí está com medo do resto desse mandato? Pelo menos enquanto Eduardo Cunha for presidente da Câmara, ou seja, por mais pelo menos 1 ano e 8 meses, não duvido de mais nada.

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