Convocar novas eleições é ser conivente com golpe da direita

Impeachment é criminoso e representará retrocesso e perda de direitos; mas novas eleições apagarão a pecha de “golpe” e fraudarão nossa memória histórica.

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Diante da quase certa derrota no Senado, o PT e os movimentos de esquerda já começam a comprar a ideia de “novas eleições” durante o mandato legítimo de uma presidente honesta, eleita democraticamente por 54 milhões de brasileiros e que não cometeu crime de responsabilidade. Por um lado, o cálculo político e o quadro que hoje se coloca apontam essa opção como a mais razoável: com Lula liderando as pesquisas, um novo pleito parece ser a única forma de impedir que a esquerda seja escamoteada de volta à sua posição marginal na política brasileira por sabe-se lá por quantos anos.

Por outro lado, eu me pergunto: a que custo? E respondo: o custo é garantirmos que esse processo criminoso promovido pela direita fique marcado na história como um “conflito legítimo e espontâneo”, resolvido com um “pacto justo pelo bem na nação”. Sabemos que, definitivamente, este não é o caso – e qualquer definição diferente da palavra “golpe” fraudará nossa memória histórica permanentemente.

Nós da esquerda já temos consciência que o impeachment é um risco real, e que um governo Temer significará perda de direitos, especialmente para a classe trabalhadora de baixa renda e para minorias. O pouco que foi divulgado sobre um possível governo do peemedebista já indica uma era de trevas à frente: desindexação do salário mínimo, redução ou eliminação de programas sociais, estatuto da família, posse de armas, ampliação da participação e influência do agronegócio, indústria e mercado financeiro no governo federal, acordão para arquivamento da Lava Jato.

Apesar disso, a esquerda não pode ser conivente com o golpe, cedendo às pressões antidemocráticas da direita. Novas eleições convocadas como consequência de tentativa de golpe são nada mais do que golpe! Um pleito ilegal, que confiscará da primeira mulher eleita presidente deste país um mandato que a ela cabe, receberá a roupagem da legalidade, caso a esquerda aceite jogar o jogo dos golpistas. Um jogo sujo do qual, lembremos, não existe qualquer garantia de sairmos vitoriosos.

A única atitude decente a ser tomada pelo PT e pela esquerda neste momento é denunciar, sistematicamente, nacional e internacionalmente, a subversão da ordem democrática no país, mobilizando todas as suas forças nas ruas. Se o Congresso não se mostrar permeável à resistência popular e não for possível barrar o impeachment, é necessário ficar muito claro e muito bem registrado que o parlamento, em conluio com as elites empresariais e com a oligarquia midiática, promoveu um golpe de Estado. E, ao mesmo tempo, será necessário intensificar as lutas nas ruas, com paralisações, greves e protestos ao longo de todos os dois anos em que o ilegítimo presidente Temer tentará governar para as elites. As vozes das ruas deverão gritar, diuturnamente, em alto e bom som: “golpista!”.

Somente assim, o Brasil poderá registrar esse momento político como ele realmente foi: um vergonhoso golpe de Estado promovido pelas mesmas forças de 1964 e 1954. Os golpistas terão que prestar contas à história: e eles não serão absolvidos.

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