O Partido dos Trabalhadores quer o golpe

Hoje, depois de ler, atônita, uma notícia sobre a “flexibilização” dos direitos trabalhistas (juro que achei que isso não ia pra frente, de tão absurdo que é), tive uma epifania assustadora, mas esclarecedora, a respeito da apatia do PT e dos movimentos populares e sindicais com ele alinhados, diante dos retrocessos escabrosos que vem sendo propostos pelo governo golpista.

Por semanas, eu venho me questionando sobre o motivo de não estarem sendo realizadas greves, paralisações e grandes caravanas, daquelas vermelhas que a CUT faz em todo o país. Afinal, nós chegamos a ver uma movimentação partidária e popular significativa assim que o golpe começou a ser implementado. No entanto, agora que estamos chegando aos últimos minutos do segundo tempo, parece que ninguém está nem aí pra golpe nem para os retrocessos que vem sendo propostos a toque de caixa.

E agora está muito claro pra mim o motivo disso tudo: atualmente, o PT já prefere o golpe ao retorno de Dilma. E digo isso pelos seguintes motivos:

1) Com a saída da presidenta democraticamente eleita e a vitória do impeachment ilegal, a campanha petista de 2018 poderá atribuir ao seu adversário, possivelmente alinhado com o governo interino, a pecha de “golpista”, sem medo de ser feliz. Isso vai dar muito material pra Lula nas eleições (caso não seja preso, claro): poderá aludir a 1964, falar sobre os áudios que mostram que o objetivo era parar a Lava Jato, usar os adjetivos mais escabrosos para caracterizar seu oponente pelo que ele possivelmente será – um criminoso golpista vestido com terno e gravata. Isso tudo já seria possível ainda que o impeachment fosse vencido, mas vai ter um charme a mais se o golpismo triunfar. Inclusive porque a receita estaria incompleta sem os demais ingredientes…

2) O PT vai se livrar de tomar medidas impopulares. Dado o nível de prostituição ideológica do partido, nada garante que várias dessas medidas tomadas por Temer e seus capangas não seriam implementadas por Dilma. O PT abraçou com carinho a linha econômica ortodoxa que destrói economias em recessão em todo o mundo, e certamente iria propor mais uma série de medidas de austeridade, o que minaria ainda mais o pouco apoio popular que o partido ainda tem. Com a saída de Dilma, a batata quente cai nas mãos dos golpistas, e Lula vai ter muito o que falar sobre isso nas eleições de 2018. Ah, ele não vai deixar isso barato! Vai bater em cada medida negativa adotada por Temer. Como mágica, Lula vai voltar a ser o metalúrgico combativo de outrora… O que me leva ao próximo tópico.

3) O PT quer se reposicionar no espectro político para tentar ganhar as próximas eleições. Essa deve estar sendo vista pelas lideranças do partido como a única forma de se obter êxito eleitoral e reverter o estrago feito por suas diversas cagadas, pela Lava Jato e pela mídia golpista. Já faz um tempo que o partido vem se afastando de sua base social, agindo como centrão, implementando ajustes fiscais e reformas bizarras, e flertando com setores odiosos, como a bancada BBB. Isso acabou deixando o PT num limbo – entre o ódio dos reacionários e alienados políticos e a decepção das massas e da esquerda. O PT precisa do povão, e voltando nas eleições de 2018 como defensor dos trabalhadores, com um discurso bem mais à esquerda em relação ao governo golpista, Lula tem alguma chance de, usando de seu carisma natural, ganhar mais uma eleição. Afinal, a melhor forma de ser esquerda é se opondo a um governo de direita.

E, na minha opinião, é nisso que o partido está apostando todas as suas fichas. Eu, sinceramente, não sei se me ocupo de lamentar o triste fim de qualquer rastro de ideologia em um partido tão importante para a história do país como o PT, ou se, pensando em evitar o pior, fico preocupada com o fato de que esse plano certamente não vai funcionar. Afinal, precisamos lembrar que nosso Judiciário, inclusive a Corte Suprema, é uma nova categoria de bandidagem de alto nível, algo como uma facção de narcotraficantes que não traficam drogas e sim vidas humanas. Eles vão prender Lula se for necessário, ou pelo menos torná-lo inelegível. Mas talvez isso nem seja necessário, já que a mídia vai fazer seu dever de casa e promover um “show de imparcialidade” durante a cobertura das próximas eleições.

A verdade é que essa batalha do impeachment está perdida – não porque era impossível vencê-la, mas porque um dos lados, covardemente, jogou a toalha muito antes do último round. Isso – esse acovardamento diante da flagrante afronta à nossa democracia e o abandono de uma companheira à mingua – pra mim nada mais é do que um reflexo do que se tornou essa grande massa centro-esquerda composta pelo PT e por entidades/movimentos tradicionais representantes dos trabalhadores: são apenas mais uma peça do sistema reprodutor das injustiças (satisfeita por fazer parte dele); estruturas hierarquizadas, aparelhadas e cooptadas para dentro dos espaços do Estado, sem qualquer diálogo com o povo e com as pessoas que representam, dançando conforme a música, exatamente como fazem seus adversários.

Relutante, acho que agora me convenci do que já vem sendo anunciado pelo outro lado há muito tempo: parece que esse é mesmo o triste fim do projeto político-social petista.

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