Por que estamos tão comovidos com o caso Charlie Hedbo?

A morte de cartunistas e colaboradores brancos franceses do jornal satírico Charlie Hebdo está mobilizando massas pelo mundo – até no Brasil tivemos manifestações ao melhor estilo “burguês indignado”. É impressionante como as palavras “brancos” e “franceses” têm relevância nesse contexto. Em “terras bárbaras longínquas” e – nem precisamos ir tão longe – até mesmo nas nossas periferias, onde vive uma suposta “escória da sociedade brasileira”, a morte é considerada, pelo imaginário ocidental padrão, algo banal, cotidiano. “Morre-se a torto e à direita, porque esse povo nem civilizado é – matam uns aos outros, ou são mortos graças às forças civilizatórias do bem”.

O etnocentrismo ocidental e a desumanização do outro chega ao ponto de negarmos-lhes até mesmo sensibilidade suficiente para sofrer com a perda de entes queridos, com o medo da morte, com a dor e a mutilação físicas e psicológicas, como se qualquer um que vivesse fora do dito “mundo livre e democrático” estivesse um pouco mais próximo da animalidade, incapaz de experimentar sensações e emoções humanas de forma plena.

No fundo, sabemos que a liberdade de imprensa e de expressão nos países democráticos não está realmente ameaçada por esse episódio. Vivemos perigos muito piores no passado – e, sejamos sinceros, muita gente no Brasil não dá a mínima para isso, chegando a pedir a volta da ditadura militar. A questão é: as Américas e a Europa estão horrorizadas porque 12 pessoas comuns, brancas e não pobres foram mortas brutalmente de forma premeditada em pleno centro de Paris, por motivos que não fazem sentido para nós.

Essas características desencadeiam um processo de identificação com as vítimas, principalmente por parte das classes médias desses países, que passam a se colocar no lugar delas, em um fenômeno que denominei síndrome do “podia ser eu” ou do “podia ser meu filho”. “Agora sim, eu, cidadão civilizado, honesto, trabalhador, movido pela razão ocidental ou pelas leis do deus cristão, estou puto da vida, porque sinto que isso poderia, ainda que remotamente, acontecer – veja só – comigo. Isso mesmo: COMIGO”.

A imprensa e as lideranças de países ocidentais também fazem seu dever de casa, dramatizando ao máximo o acontecimento, bem como adequando-o às suas agendas políticas. Por outro lado, atos horrendos ocorridos em determinados países são noticiados com pouco destaque, não movem multidões com velas, bem com não reúnem, em poucos dias, dezenas de líderes mundiais em uma cidade ainda sob o risco de ataques terroristas. Uma hipótese: se o imperialismo das grandes potências, disfarçado de guerra ao terror, resolver invadir, digamos, o Iêmen, alguém vai acender velas para os mortos dessa nova chacina?

Mais sobre o que Plínio Zúnica chamou de luto seletivo no texto Discutindo Charlie – Parte 1: “Je Suis Quem?”, publicado em seu blog.

Minha opinião sobre a eleição presidencial de 2014

Algumas pessoas disseram que “não vão sentir falta dessas eleições”, que “essas eleições não vão deixar saudade”, que “foram horríveis e assustadoras”. Não concordo completamente. O pleito desse ano foi muito importante – clareou muita coisa, impactou na politização da sociedade, expôs temas polêmicos, uniu forças, e, se tudo der certo, marcou a mudança na forma de governar do PT, partido em que ainda acredito, apesar de todos os seus problemas e limitações.

Na luta por uma sociedade mais justa, o conflito será sempre inevitável e necessário; a polarização e o radicalismo momentâneos sempre existirão, e servirão para definir melhor as posições de cada lado, colocar os pingos nos “is” e unir pessoas em torno de ideais. As mudanças e a redução de privilégios serão sempre seguidas de resistência e reações violentas.

A agressividade do processo eleitoral deste ano apenas evidenciou esse conflito, reforçado pela campanha midiática ostensiva das empresas que controlam a informação no país – controlam ou controlavam, pois, esse ano, o cerco histórico foi furado pelas redes sociais, outra grande realização do pleito alucinante de 2014.

Nessa campanha eleitoral, o tempo adquiriu nova dimensão, quando qualquer declaração descuidada passou a ser difundida e contestada em tempo real, simultaneamente, por milhares de pessoas. O que a imprensa antes ocultava e moldava conforme seus próprios interesses passou a ser evidenciado e viralizado, sem respeito a qualquer limite territorial. O que esses mesmos veículos informavam era confrontado com outras fontes, informações, interpretações – e até mesmo com publicações antigas dos próprios conglomerados midiáticos.

Ideologias passaram a ser disseminadas, posicionamentos foram desconstruídos, mentiras foram criadas e desmascaradas. Sem a “militância virtual”, e considerando o esforço da mídia em eleger seu candidato, não acho que o PT teria ganhado essa eleição; e esse fato, sozinho, já torna essa disputa uma das mais revolucionárias dos últimos anos no país.

Também vem sendo dito que essas eleições provocaram uma onda reacionária, tornando os cidadãos mais preconceituosos, racistas, elitistas, classistas. Eu não concordo: o pensamento conservador sempre esteve aí, ora evidente, ora adormecido. Um processo eleitoral não é capaz de criar uma orientação ideológica do nada, ainda que a pressão midiática tenha estimulado o extremismo de direita e o antipetismo. Ideologia decorre da formação social e cultural de um país; ela expressa anos de acumulação – uma bagagem realmente considerável – e não se forma de uma hora pra outra.

A eleição presidencial, portanto, não tornou a sociedade mais reacionária; apenas expôs esse lado feio que sempre existiu por aqui de forma silenciosa, impregnado em nosso dia a dia. Esse lado que existe em cada destrato praticado pela patroa para com a empregada doméstica; em cada brado contra as cotas sociais e raciais sob o pretexto de uma suposta meritocracia; em cada crítica infundada ao Bolsa-Família, e em várias outras atitudes banais com as quais aprendemos a conviver.

Esse afloramento de ideias reacionárias e agressivas estimulado pelo clima eleitoral pode trazer consequências assustadoras no curto prazo, mas, no longo prazo, é importante e útil, pois é através dele que identificamos com mais clareza os nossos fantasmas. Por causa da expressão escancarada desses preconceitos, as esquerdas se uniram mais forte nessas eleições, deixando de lado questões partidárias, ressentimentos e discordâncias metodológicas.

Nas ruas e nas redes, militantes, simpatizantes, porta-vozes, blogueiros, todos se uniram em torno de um objetivo comum: garantir a vitória do amor sobre o ódio, da tolerância sobre o preconceito, da solidariedade sobre o egoísmo, da igualdade social sobre os privilégios. A militância do PT voltou a tomar as ruas, colorindo as cidades de vermelho como há muitos anos não se via. Simpatizantes do partido passaram a defender a presidente com argumentos informados, desconstruindo discursos difamatórios e entrando em um embate virtual pelos trending topics das redes sociais.

Essa união entre as forças progressistas pode, quem sabe, dar um novo ânimo ao governo do PT, aproximando-o daqueles que realmente o colocaram na presidência pela quarta vez consecutiva. Na véspera das eleições, escrevi:

Se Dilma for reeleita, deverá isso à sua militância e aos movimentos sociais de esquerda, que realizaram um excelente trabalho nas ruas e no mundo virtual.

Nas redes sociais, blogueiros progressistas, eleitores já decididos, grupos de esquerda e representantes de minorias fizeram a melhor campanha de todas, mostrando seu apoio à continuidade do governo do PT e desconstruindo sistematicamente o candidato frágil que é Aécio Neves e o projeto retrógrado que é o do PSDB.

Nas ruas, militantes apoiaram com o corpo e o coração a candidata, lotando seus comícios e agitando, incansavelmente, bandeiras pelas cidades brasileiras. E até quem se diz neutro, como o PSOL, passou a apoiar, por meio de vários dos seus porta-vozes e eleitores, a reeleição da atual presidente.

E é por tudo isso que, nesse (possível) próximo mandato, Dilma precisa olhar para essas pessoas e movimentos. Precisa ser sensível a seus pleitos, batalhando, de verdade, por aqueles que a elegeram e depositaram nela todas as suas fichas.

Chegou a hora de o PT voltar às origens e lutar pelas bandeiras de esquerda, ainda que isso signifique desagradar algumas pessoas e bater de frente com o Congresso conservador que, infelizmente, elegemos para esse próximo mandato.

Estou confiante de que isso pode acontecer. Da antiga polarização entre PT e PSDB, passamos para a polarização entre esquerda e direita, e, pra mim, isso foi o que diferenciou essas eleições das anteriores.

Rumo à vitória, companheiros. Os próximos quatro anos podem ser muito bons. Só o tempo dirá.

O primeiro passo já foi dado.

Carta às Marinas

“Prefiro ser criticada lutando por aquilo que acredito ser o melhor para o Brasil, do que me tornar prisioneira do labirinto da defesa do meu interesse próprio, onde todos os caminhos e portas que percorresse e passasse, só me levariam ao abismo de meus interesses pessoais.”

Marina,

O partido que você agora apoia pode achar que parte do povo é “mal informada” porque vive em “grotões”, mas, por favor, não insulte a inteligência desse povo com palavras vazias e desonestas, na tentativa de resgatar o pouco de dignidade que lhe restou. Ao longo dessa campanha, você mostrou que não tem integridade, e que representa, ironicamente, o que há de mais velho na política brasileira, pois foi movida por motivos puramente eleitorais, abrindo mão de quaisquer ideais que alegava ter.

Sabemos agora que esses ideais não passam de retórica da pior categoria, pois você não pensou duas vezes na hora de abrir mão de cada um deles ao longo dessa vergonhosa campanha eleitoral que culminou com o apoio a um projeto retrógrado, neoliberal, elitista e demagógico. Ficou claro ao longo desses quase dois meses que não lhe importa construir um país mais justo, igualitário, tolerante e sustentável, pois seu desejo de se manter viva nesse jogo eleitoral sujo é bem maior do que sua preocupação com o que pode estar pela frente nesses próximos quatro anos.

Você usa o argumento da alternância de poder e levanta a bandeira da mudança, mas sabe muito bem que não estamos diante da “renovação”, e sim da defesa dos interesses do mercado financeiro, da subserviência às grandes potências, da leniência com a corrupção, da ode a uma ilusória meritocracia e da interrupção de um processo de inclusão iniciado por Lula e levado adiante pela presidente Dilma, a despeito de todos os seus defeitos. Para defender seus interesses eleitorais e conseguir migalhas de um possível governo do PSDB, você abandonou até mesmo o discurso anti-polarização, e teve a coragem de dizer que Aécio “retoma o fio da meada virtuoso”. Não, Marina, foi você que perdeu o fio da meada, e isso não tem nada de virtuoso.

Ao longo de sua contraditória campanha, você não hesitou em tentar arrecadar votos em todos os segmentos da população, entre opressores e oprimidos – religiosos, LGBT, empresários, trabalhadores, agronegócio, ambientalistas –, e mostrou que seu único objetivo foi tentar aproveitar o clima político favorável para se eleger presidente a custo de qualquer coerência, pois qualquer um, “mal informado” ou não, “oriundo de grotões” ou não, sabe que é impossível atender a todos esses interesses. Depois, derrotada, você se despiu das poucas bandeiras que lhe restavam – mas com o cuidado de elencar exigências decorativas que tornassem seu apoio à direita menos humilhante.

Nesse discurso demagógico de declaração de apoio a Aécio Neves, você ousou compará-lo ao ex-presidente Lula. Não, Marina, Aécio não é Lula, e você sabe muito bem disso. Então, por favor, nos poupe dessa tentativa de mostrar-se acima da rivalidade existente entre os projetos políticos do PT e do PSDB, ao tratar a alternância de poder como um benefício irrestrito que prescinde de prioridades e orientação política.

Eu gostaria de pensar que você arruinou sua carreira política ao mostrar não ter qualquer ideologia, mas, infelizmente, não é isso que define o sucesso nessa “profissão”, e acredito que você terá uma longa trajetória defendendo os interesses da elite. Parabéns, Marina: ao invés de criar “a nova política”, você se engajou na velha em sua mais pura essência, traindo todos os seus eleitores que realmente acreditavam em um projeto novo e progressista. É o triste fim de uma bela trajetória; e o início de uma outra Marina: a nova Marina da velha – velhíssima – politicagem.

Do que o Brasil tem medo?

É impressionante e desanimador observar como as mudanças sociais ocorridas nos últimos 12 anos não parecem ter trazido uma perspectiva otimista em relação ao futuro e à ideia de “mudança”. Pelo contrário: o brasileiro está mais conservador – e isso pode ser facilmente constatado pela quantidade de políticos reacionários completamente malucos eleitos esse ano.

Aqui no Distrito Federal, a situação é desanimadora, com apenas um parlamentar realmente progressista eleito no universo das oito cadeiras que detemos na Câmara dos Deputados. Quando olho à minha volta, o cálculo não fecha, porque não vejo meus conterrâneos como um bando de reacionários bitolados, mas, ao mesmo tempo, tivemos o candidato Fraga (DEM), que defende armar a população e chama cadeias de “colônias de férias”, como o mais votado aqui no DF para a Câmara federal.

Esse fato, sozinho, mostra uma expressiva resistência à mudança por parte do eleitor da capital federal, e resume a aversão do brasiliense a uma possível renovação na maneira de encarar e gerir a segurança pública – talvez uma forma mais humanizada e pautada pela ressocialização.

Ainda no DF, escolhemos para senador, em primeiro turno, o candidato Reguffe, deputado federal pelo PDT famoso (unicamente) por sua honestidade, mas que defende bandeiras como a redução da carga tributária e apoia a redução da maioridade penal. Também é contra a legalização do aborto, a descriminalização da maconha e o casamento gay, três pautas atuais que servem quase como termômetro para medir o quão progressista é um candidato.

Todos os candidatos a senador no DF que apoiaram essas causas receberam, juntos, 1,84% dos votos, contra os 57,61% de Reguffe. Mais uma vez, rejeitamos a mudança e optamos pelo mais que manjado discurso demagógico e vazio anticorrupção que, sozinho, não concretiza nada.

Em São Paulo, a situação ficou ainda pior, pois o resultado das eleições foi quase 100% desastroso e mostrou como muitos paulistas, de todas as classes sociais, ainda mantêm um pensamento aristocrático, quase colonial, de manutenção da ordem vigente. Como é possível enxergar desejo de mudança real na reeleição do conservador Geraldo Alckmin por quase 60% dos eleitores do estado?

No Senado, acabou dando José Serra, e, na Câmara dos Deputados, Marco Feliciano, um fanático religioso, foi o terceiro mais votado. No Rio de Janeiro, o nome Jair Bolsonaro (o mais votado no estado para deputado federal) dispensa comentários. Como resultado geral das eleições para a Câmara dos Deputados, teremos, nos próximos quatro anos, a composição mais conservadora desde 1964.

Acompanhar os números da eleição presidencial também foi cruel, porque aí fica ainda mais escancarada a resistência nacional a um processo contínuo de mudança.

Em tempo: mudança não é trocar a legenda do governo – colocar um presidente Fulano no lugar de Ciclano – e sim promover uma gradativa (ou abrupta, em alguns casos) reestruturação da sociedade, com redistribuição do poder, recursos, meios de produção e direitos. Assim, tornar nossa sociedade mais desigual, injusta, tradicional, machista, homofóbica e racista não é, em hipótese alguma, mudar, pois se estará apenas reforçando uma triste realidade histórica.

Em primeiro lugar, partidos e candidatos com ideias progressistas mais radicais e com potencial para abalar a estrutura social brasileira, como Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV), têm pouco espaço na política. Nessas eleições, os dois candidatos tiveram desempenho sofrível, apesar da boa performance nos debates.

Luciana conseguiu 1,55% dos votos – para os mais otimistas, quase uma “vitória” – e Eduardo Jorge, que ganhou destaque ao longo da campanha pela simplicidade e simpatia, acabou ficando atrás até do Pastor Everaldo (outro que acha bonito impor seus dogmas religiosos ao próximo).

Já os partidos ditos “nanicos” da extrema esquerda, assentados em ideais revolucionários utópicos (que não deixam de ser interessantes), ficaram, juntos, com 0,21%. Esses números mostram que não estamos prontos para mudanças estruturais profundas; só, talvez, para uma transição lenta e gradual.

E foi isso que o PT fez ao longo desses 12 anos, depois de três derrotas tentando convencer o país a arriscar algo novo. Aos poucos, algumas mudanças começaram a ser implementadas: uma leve redistribuição de renda por meio de programas sociais; relativa democratização do ensino superior através de cotas e financiamento; expansão do ensino técnico; investimentos mais direcionados na saúde, como em medicamentos gratuitos de fácil acesso e médicos que trabalham de verdade.

Não é nem de longe o ideal, e sabemos que muitos antigos militantes se voltaram a outras legendas por considerarem que o PT se aliou ao que há de pior na política brasileira, aprendendo a conviver com os privilégios de poucos, ao invés de combatê-los.

Todas essas mudanças foram demasiado lentas – mas foram mudanças. Pela primeira vez tivemos um governo que não governou apenas para os ricos; que, apesar de conviver com ruralistas, fundamentalistas religiosos, oligopólios dos meios de comunicação e interesses econômicos escrotos de toda sorte, se voltou também para o trabalhador pobre, para o miserável, para o “marginal”, o discriminado, e ofereceu a eles a possibilidade de melhoria gradativa, mas real.

É de se imaginar que R$ 70 de Bolsa-Família, vagas reservadas na universidade e o reajuste anual do salário mínimo não sejam considerados mudanças revolucionárias – porque realmente não o são. Mas não foi o que aconteceu; e, agora, 12 anos após o início desse processo, estamos experimentando uma reação acumulada a essas medidas que ousaram mexer com o establishment.

É uma reação violenta e contagiosa, que, em tempos de revolução informacional e com estímulo da imprensa golpista, se espalha de forma virulenta por todas classes, e também por diversas áreas da vida humana, como raça, gênero, sexualidade e classe.

Essa reação trouxe de novo o medo de continuar mudando e a negação cega das melhorias obtidas; agora, uma parcela da população acha que a melhor opção é retroceder para um terreno conhecido, usando fórmulas fracassadas para garantir que “o Brasil volte a crescer”.

Os inesperados 33,55% de Aécio no primeiro turno, ao lado dos 21,32% de Marina, mostram isso: o PT “forçou a barra”, e, depois de 12 anos de algumas mudanças, o incômodo chegou ao limite máximo para a parte da sociedade que não se sente beneficiada pelos programas sociais e está ainda tão romanticamente ligada ao passado dos “privilégios exclusivos”.

Agora, faltam menos de três semanas para decidirmos o nosso destino: vamos trocar a mudança pelo retrocesso, ou seguiremos caminhando sem medo em direção às revoluções estruturais de que o país tanto precisa?

Isso não é um terrorismo qualquer. É o terrorismo midiático, bobinho.

Se independente e espontâneo, “espetáculo” com falsa ameaça de bomba ocorrido essa semana no hotel St. Peter, em Brasília, é um reflexo do delírio coletivo criado pela mídia brasileira nos últimos anos.

Começamos a ser informados de nossa ruína há cerca de quatro anos. A cada manchete, temos mais certeza de que o caos é eminente. A economia entrou em colapso, o desemprego vai alcançar, em breve, índices estratosféricos, a corrupção está consumindo todos os recursos da saúde e da educação e a Petrobrás está à beira da falência.

Essa é a realidade que nos enfiam goela abaixo, diariamente, em cada análise de especialistas globais cuidadosamente selecionados; em cada comentário de Miriam Leitão e Jabor; em cada manchete da Folha de S. Paulo, do Estadão, do O Globo – a Santíssima Trindade do charlatanismo impresso; em cada edição do planfleto Veja, que há muito abandonou os fatos pelos factoides.

Na tentativa desesperada de ditar os rumos políticos do país, a imprensa brasileira criou um monstro: um contingente de desinformados delirantes pautados pelo ódio irracional e paranoico que não se justifica ou embasa. O raciocínio há muito tempo abandonou o campo do debate político. Não mais são necessários fatos, números ou mesmo a sustentação lógica mais elementar; precisamos de acusações, escândalos, agressões, linchamentos midiáticos ou reais.

Ao invés de pensar, adotemos palavras e expressões prontas que a imprensa e seus articuladores gentilmente nos cedem para discussões de bar em que todos concordam. “Bolivariano”, “quadrilha”, “recessão”, “fantasma da inflação”, “falência da Petrobrás”, “ditadura do politicamente correto”, “maior carga tributária do mundo”. No lugar de argumentos, prefira insultos pessoais; mande a presidente tomar no cu, e negue de forma agressiva qualquer evidência empírica que contradiga o discurso do caos.

A mídia brasileira se faz de desentendida e chocada quando vê um cidadão desequilibrado ameaçando explodir um hotel por “motivações políticas” conservadoras anti-esquerda, enquanto transmite cada segundo do espetáculo que ajudou a criar. Esse ódio crescente, que se espalha por toda parte e fica cada vez mais patente na internet, pode ser, para você, magnata das comunicações, só um efeito colateral dos seus esforços para garantir um governo que melhor se adeque aos seus interesses. Para a sociedade brasileira, no entanto, significa um retrocesso ideológico; uma transição rumo à irracionalidade e à alienação, através de um conflito vazio, cego e carregado de emoções negativas.

Candidato, esqueça minha família e cuide da sua. Grata.

Um espectro ronda a nação brasileira – o espectro da “destruição da família”. Ou algo do tipo.

Quem está acompanhando a propaganda eleitoral gratuita deve ter notado a frequente preocupação de candidatos com a tal “família”. A palavra foi mencionada, de forma abstrata e descontextualizada, mais de 20 vezes só na propaganda eleitoral local do DF desta segunda-feira (25/08) – inclusive por candidatos com não mais que 10 segundos para expor os termos de sua candidatura. Quatro segundos para o nome, quatro para o número e dois para a família. Não a dele. A sua.

A menção a esse tema é tão recorrente que, se alguém pouco familiarizado com o Brasil assistir ao horário eleitoral desse ano, se sentirá confrontado, de imediato, com uma realidade nacional preocupante: a galopante repressão às relações familiares tradicionais – imposta aos “cidadãos de bem” e combatida pelos “representantes dos interesses da família” – estaria colocando o país à beira do caos social e suprimindo o direito de se constituir matrimônio heterossexual e ter filhos.

Já quem vive neste país predominantemente cristão e com forte herança patriarcal, onde se estupram e subjugam mulheres, se matam gays e espancam lésbicas, sabe que isso não passa de um delírio coletivo de indivíduos incapazes de conviver com valores e estilos de vida diferentes dos seus. Essa obscura bandeira de defesa da família não tem como objetivo pleitear direitos. Sua premissa é, ao contrário, a batalha pela restrição dos direitos alheios – em geral, direitos já gozados pelos próprios adeptos e militantes dessa aberração ideológica. Trata-se, pura e simplesmente, de uma luta contra os direitos do outro.

“Defesa da família” é só uma maneira pomposa de dizer: “não consigo conviver com pessoas diferentes de mim”.

Apesar de anedótico, não é digno de discussão muito profunda o teor apocalíptico com o qual a questão da predominância ou não da família tradicional na sociedade brasileira é colocada no cenário político. A premissa de que a existência da família é melhor do que sua inexistência é baseada, em geral, em dogmas religiosos e culturais, e nunca foi seriamente racionalizada e debatida pelos grupos que a defendem. “A desintegração da família vai causar o caos social”. Mas, até agora, ninguém sabe muito bem por que.

Mais importante do que entender os argumentos fantasiosos criados para justificar a necessidade de se manter o núcleo familial nos moldes tradicionais e cristãos, é saber exatamente o que significa lutar por esse ideal. A “defesa da família” não diz respeito aos laços existentes entre pai, mãe, filhos e irmãos. Não fala sobre sentimentos de amor e carinho. Também não se relaciona com apoio e responsabilidade, ou com a dor e a saudade que causa a perda de um ente querido. E, muito menos, tem a ver com a busca do direito de escolher como viver. Por quê? É simples: não se pleiteia direito já conferido, consolidado e dominante. Quando alguém faz isso, está na verdade buscando outra coisa: cercear o direito do outro.

Um dos grupos mais prejudicados nessa história é a comunidade LGBT, que obteve alguns avanços nos últimos anos, como a união estável e o casamento civil, mas cuja luta esbarra constantemente na bandeira de “defesa da família”, solidamente representada no Congresso Nacional. Deriva desse conflito, ainda, o estímulo implícito à violência e discriminação contra homossexuais e transgêneros, a intolerância e as tentativas de orientação forçada a uma forma de vida que os integrantes dessa militância desprezível julgam “correta”. Kit macho, cura gay, comunidades de orgulho hétero em redes sociais e as barbaridades ditas por certos parlamentares da ultradireita são todas demonstrações cabais de que não estamos tratando aqui da “defesa da família”, e sim do “ataque à diversidade”.

Mas a discriminação por orientação sexual não é a única faceta desse fascismo travestido de espiritualidade. A “defesa da família” também implica a demonização do aborto e coloca obstáculos à liberação integral da mulher do ambiente doméstico e da função obrigatória e natural de esposa e mãe. Isso sem falar nas diversas ideias tipicamente reacionárias que vêm embutidas nesse pacotão de intolerância. Classismo, racismo, resistência a transformações sociais, saudosismo da ditadura, linchamentos – são alguns dos ideais malucos dessa doutrina “do cidadão de bem contra os depravados do mal”.

Defender algo já dominante: repressão ou só um discurso vazio do seu candidato.

Desconsiderando toda a conotação negativa que a “defesa da família” carrega consigo, e partindo do princípio de que não existem intenções discriminatórias neste posicionamento, é interessante analisar o que essa bandeira pode significar nas campanhas eleitorais de nossos candidatos.

Vamos aos fatos: existe algo mais vazio do que se dizer em defesa de uma instituição há séculos consolidada e dominante em nossa sociedade? Que ações poderiam ser implementadas sob uma rubrica tão ampla e vaga quanto esta? Para estruturar e fortalecer famílias, existem os programas de redistribuição de renda, o serviço social, os investimentos em educação. É possível melhorar os mecanismos de combate à violência doméstica, ampliar o programa Saúde da Família, garantir creches e escolas de qualidade. Todas essas temáticas têm nome, são bem definidas e estão aí para serem discutidas.

Portanto, caro eleitor, se o seu objetivo não é oprimir minorias ou eleger candidatos sem ideias, está na hora de deixar de lado a “defesa da família”. Tenho certeza de que, com tolerância, justiça social e um pouco de amor, cada um vai conseguir cuidar da sua.

A direita se defende da forma que melhor conhece: pela censura. Ou “Por que a Veja não aprovou meu comentário?”

Enquanto Aécio Neves tenta calar seus críticos na base do mandado de busca e apreensão e da censura de sites de busca e redes sociais, a revista Veja parece manter seu portal livre de comentários negativos através de uma moderação no mínimo duvidosa. A direita vocifera por liberdade de imprensa, mas na verdade quer amordaçar, a todo custo, qualquer um que pense diferente.

Sempre achei desproporcional a quantidade de comentários positivos nos blogs e colunas dos “articuladores” mais populares da revista Veja, quando comparada com o número de posicionamentos críticos. Apesar de saber que esse tipo de sítio é frequentado majoritariamente por internautas que concordam com a linha editorial, eu costumava imaginar que pessoas com ideologia contrária, como eu, de vez em quando passassem por ali, se irritassem, e acabassem fazendo um comentário ou outro – mais por revolta ou impulso, do que por algum motivo mais nobre. Ainda assim, posições críticas sempre rarearam nesse ambiente.

Depois de alguns anos acompanhando de longe os ídolos da direita brasileira e seus seguidores, chegou finalmente a minha vez de “não resistir”. E eu confesso: postei um comentário no portal da revista Veja. É, amigos, para tudo existe uma primeira vez. Escrito e publicado esta sexta-feira (25) por Reinaldo Azevedo, o texto que me despertou a coragem para isso foi elaborado como resposta ao colunista da Folha de S. Paulo, Guilherme Boulos. Boulos abordou em sua brilhante coluna desta quinta (24) o que ele chamou de “direita delirante”, referindo-se diversas vezes a Azevedo.

Como faz com frequência, o jornalista da Veja respondeu com um texto em que tenta desconstruir os argumentos de Boulos, trecho por trecho. O resultado, a meu ver constrangedor, foi um discurso raivoso, infantilizado e delirante, que acabou por provar o ponto de vista do colunista da Folha: os porta-vozes da direita realmente perderam a mão. Sobre o texto de Azevedo, postei, portanto, o seguinte comentário no sítio da Veja:

“Esse texto infantil e terrivelmente enfadonho teve como único mérito ratificar todas as colocações do colunista da Folha. Ironicamente, os delírios e obsessões apontadas por Boulos ficam claras nessa réplica, e mostram a incapacidade de Reinaldo Azevedo em construir qualquer linha de raciocínio sem se apoiar em menções aleatórias e indiscriminadas ao PT, e sem partir pra baixaria, com direito a xingamentos e ataques pessoais mal colocados (algo parecido com chamar seu oponente de ‘gordo’ ou ‘burro’ em uma discussão sobre política, por exemplo, como forma de atacá-lo e desqualificá-lo, no lugar de utilizar argumentos relacionados ao assunto debatido). Algumas partes soam como pura birra, dignas de uma criança de sete anos. Lamentável. É, ‘a direita brasileira já foi melhor’.”

Surpresa ou não, o fato é que o comentário não foi aceito pela moderação do site, enquanto centenas de opiniões favoráveis ao texto, grande parte delas agressiva, foram aceitas e agora aparecem ratificando integralmente a opinião do colunista, sem que exista qualquer contraponto ou possibilidade real de debate a respeito do tema pelos leitores do portal. Mas, pensando bem, debate pra que, quando o objetivo não é promover a discussão saudável, mas sim impor uma posição, alimentando o ódio e a intolerância contra os “inimigos criados pela política editorial”?

E, afinal, o que isso é se não um sintoma do que já estamos cansados de saber? A direita sempre teve o costume de ser intolerante com seus “adversários”. Entre a argumentação e a força bruta, preferem a segunda opção. Não é à toa que o presidenciável do PSDB, Aécio Neves, prefere invadir a casa de uma jornalista – que é, acima de tudo, uma cidadã – em busca de um motivo para processá-la, numa tentativa de calá-la, do que receber e tentar rebater as críticas supostamente proferidas por ela (críticas estas que ele preferiu apelidar de “comentários difamatórios”). Se quisermos um exemplo mais contundente do que esse, temos 20 anos de ditadura para demonstrar que o debate não é exatamente a primeira opção dessas correntes ideológicas.

Correntes que, hoje em dia, falam com pompa sobre liberdade de imprensa e expressão, acusam o atual governo federal de promover a censura dos veículos de comunicação – quando, contraditoriamente, esses veículos trabalham claramente em força-tarefa para expor as falhas deste mesmo governo –, mas são, na prática, incapazes de conviver com opiniões diferentes das suas próprias.

E quem quiser usar aqui a técnica do “tu quoque” (“você também”), tire a prova entrando em um site ou blog tipicamente “esquerdista” ou “sujo”, como alguns gostam de chamá-los, e veja quantas opiniões contrárias à posição editorial do veículo estampam as suas páginas. Os “esquerdopatas”, “petralhas”, “comunistas”, ou como quer que desejem apelidá-los, têm as suas convicções; mas podem ter certeza que eles lhes darão espaço para expor as suas.