O Partido dos Trabalhadores quer o golpe

Hoje, depois de ler, atônita, uma notícia sobre a “flexibilização” dos direitos trabalhistas (juro que achei que isso não ia pra frente, de tão absurdo que é), tive uma epifania assustadora, mas esclarecedora, a respeito da apatia do PT e dos movimentos populares e sindicais com ele alinhados, diante dos retrocessos escabrosos que vem sendo propostos pelo governo golpista.

Por semanas, eu venho me questionando sobre o motivo de não estarem sendo realizadas greves, paralisações e grandes caravanas, daquelas vermelhas que a CUT faz em todo o país. Afinal, nós chegamos a ver uma movimentação partidária e popular significativa assim que o golpe começou a ser implementado. No entanto, agora que estamos chegando aos últimos minutos do segundo tempo, parece que ninguém está nem aí pra golpe nem para os retrocessos que vem sendo propostos a toque de caixa.

E agora está muito claro pra mim o motivo disso tudo: atualmente, o PT já prefere o golpe ao retorno de Dilma. E digo isso pelos seguintes motivos:

1) Com a saída da presidenta democraticamente eleita e a vitória do impeachment ilegal, a campanha petista de 2018 poderá atribuir ao seu adversário, possivelmente alinhado com o governo interino, a pecha de “golpista”, sem medo de ser feliz. Isso vai dar muito material pra Lula nas eleições (caso não seja preso, claro): poderá aludir a 1964, falar sobre os áudios que mostram que o objetivo era parar a Lava Jato, usar os adjetivos mais escabrosos para caracterizar seu oponente pelo que ele possivelmente será – um criminoso golpista vestido com terno e gravata. Isso tudo já seria possível ainda que o impeachment fosse vencido, mas vai ter um charme a mais se o golpismo triunfar. Inclusive porque a receita estaria incompleta sem os demais ingredientes…

2) O PT vai se livrar de tomar medidas impopulares. Dado o nível de prostituição ideológica do partido, nada garante que várias dessas medidas tomadas por Temer e seus capangas não seriam implementadas por Dilma. O PT abraçou com carinho a linha econômica ortodoxa que destrói economias em recessão em todo o mundo, e certamente iria propor mais uma série de medidas de austeridade, o que minaria ainda mais o pouco apoio popular que o partido ainda tem. Com a saída de Dilma, a batata quente cai nas mãos dos golpistas, e Lula vai ter muito o que falar sobre isso nas eleições de 2018. Ah, ele não vai deixar isso barato! Vai bater em cada medida negativa adotada por Temer. Como mágica, Lula vai voltar a ser o metalúrgico combativo de outrora… O que me leva ao próximo tópico.

3) O PT quer se reposicionar no espectro político para tentar ganhar as próximas eleições. Essa deve estar sendo vista pelas lideranças do partido como a única forma de se obter êxito eleitoral e reverter o estrago feito por suas diversas cagadas, pela Lava Jato e pela mídia golpista. Já faz um tempo que o partido vem se afastando de sua base social, agindo como centrão, implementando ajustes fiscais e reformas bizarras, e flertando com setores odiosos, como a bancada BBB. Isso acabou deixando o PT num limbo – entre o ódio dos reacionários e alienados políticos e a decepção das massas e da esquerda. O PT precisa do povão, e voltando nas eleições de 2018 como defensor dos trabalhadores, com um discurso bem mais à esquerda em relação ao governo golpista, Lula tem alguma chance de, usando de seu carisma natural, ganhar mais uma eleição. Afinal, a melhor forma de ser esquerda é se opondo a um governo de direita.

E, na minha opinião, é nisso que o partido está apostando todas as suas fichas. Eu, sinceramente, não sei se me ocupo de lamentar o triste fim de qualquer rastro de ideologia em um partido tão importante para a história do país como o PT, ou se, pensando em evitar o pior, fico preocupada com o fato de que esse plano certamente não vai funcionar. Afinal, precisamos lembrar que nosso Judiciário, inclusive a Corte Suprema, é uma nova categoria de bandidagem de alto nível, algo como uma facção de narcotraficantes que não traficam drogas e sim vidas humanas. Eles vão prender Lula se for necessário, ou pelo menos torná-lo inelegível. Mas talvez isso nem seja necessário, já que a mídia vai fazer seu dever de casa e promover um “show de imparcialidade” durante a cobertura das próximas eleições.

A verdade é que essa batalha do impeachment está perdida – não porque era impossível vencê-la, mas porque um dos lados, covardemente, jogou a toalha muito antes do último round. Isso – esse acovardamento diante da flagrante afronta à nossa democracia e o abandono de uma companheira à mingua – pra mim nada mais é do que um reflexo do que se tornou essa grande massa centro-esquerda composta pelo PT e por entidades/movimentos tradicionais representantes dos trabalhadores: são apenas mais uma peça do sistema reprodutor das injustiças (satisfeita por fazer parte dele); estruturas hierarquizadas, aparelhadas e cooptadas para dentro dos espaços do Estado, sem qualquer diálogo com o povo e com as pessoas que representam, dançando conforme a música, exatamente como fazem seus adversários.

Relutante, acho que agora me convenci do que já vem sendo anunciado pelo outro lado há muito tempo: parece que esse é mesmo o triste fim do projeto político-social petista.

Convocar novas eleições é ser conivente com golpe da direita

Impeachment é criminoso e representará retrocesso e perda de direitos; mas novas eleições apagarão a pecha de “golpe” e fraudarão nossa memória histórica.

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Diante da quase certa derrota no Senado, o PT e os movimentos de esquerda já começam a comprar a ideia de “novas eleições” durante o mandato legítimo de uma presidente honesta, eleita democraticamente por 54 milhões de brasileiros e que não cometeu crime de responsabilidade. Por um lado, o cálculo político e o quadro que hoje se coloca apontam essa opção como a mais razoável: com Lula liderando as pesquisas, um novo pleito parece ser a única forma de impedir que a esquerda seja escamoteada de volta à sua posição marginal na política brasileira por sabe-se lá por quantos anos.

Por outro lado, eu me pergunto: a que custo? E respondo: o custo é garantirmos que esse processo criminoso promovido pela direita fique marcado na história como um “conflito legítimo e espontâneo”, resolvido com um “pacto justo pelo bem na nação”. Sabemos que, definitivamente, este não é o caso – e qualquer definição diferente da palavra “golpe” fraudará nossa memória histórica permanentemente.

Nós da esquerda já temos consciência que o impeachment é um risco real, e que um governo Temer significará perda de direitos, especialmente para a classe trabalhadora de baixa renda e para minorias. O pouco que foi divulgado sobre um possível governo do peemedebista já indica uma era de trevas à frente: desindexação do salário mínimo, redução ou eliminação de programas sociais, estatuto da família, posse de armas, ampliação da participação e influência do agronegócio, indústria e mercado financeiro no governo federal, acordão para arquivamento da Lava Jato.

Apesar disso, a esquerda não pode ser conivente com o golpe, cedendo às pressões antidemocráticas da direita. Novas eleições convocadas como consequência de tentativa de golpe são nada mais do que golpe! Um pleito ilegal, que confiscará da primeira mulher eleita presidente deste país um mandato que a ela cabe, receberá a roupagem da legalidade, caso a esquerda aceite jogar o jogo dos golpistas. Um jogo sujo do qual, lembremos, não existe qualquer garantia de sairmos vitoriosos.

A única atitude decente a ser tomada pelo PT e pela esquerda neste momento é denunciar, sistematicamente, nacional e internacionalmente, a subversão da ordem democrática no país, mobilizando todas as suas forças nas ruas. Se o Congresso não se mostrar permeável à resistência popular e não for possível barrar o impeachment, é necessário ficar muito claro e muito bem registrado que o parlamento, em conluio com as elites empresariais e com a oligarquia midiática, promoveu um golpe de Estado. E, ao mesmo tempo, será necessário intensificar as lutas nas ruas, com paralisações, greves e protestos ao longo de todos os dois anos em que o ilegítimo presidente Temer tentará governar para as elites. As vozes das ruas deverão gritar, diuturnamente, em alto e bom som: “golpista!”.

Somente assim, o Brasil poderá registrar esse momento político como ele realmente foi: um vergonhoso golpe de Estado promovido pelas mesmas forças de 1964 e 1954. Os golpistas terão que prestar contas à história: e eles não serão absolvidos.

The 10 lies of Globo

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Globo, a media group from Brazil, responded to an article published by The Guardian about the brazilian political crisis. Here’s the result.

LIE 1: “It fails to mention that everything began with an investigation (named Operation Carwash)”.

The impeachment has nothing to do with Operation Car Wash, and Globo is mentioning it to confuse the readers of this respectable media outlet – as they normally do in Brazil. Rousseff herself isn’t implicated in any of the criminal facts been investigated by Car Wash. She is been impeached under accusations of fiscal maneuvers, executed to maintain social programs, like “Bolsa Família” (famous all over the world for been an example against social inequality). This maneuvers are regularly practiced by most brazilian public administrations (including by opposing ex-president Fernando Henrique Cardoso), and was also practiced just last year by 16 elected state governments currently in office. Does Globo want them impeached? Here’s a million dollar question.

LIE 2: “[…] investigation (named Operation Carwash), which in turn revealed the largest bribery scheme and corruption scandal in the country’s history, involving leading members of the ruling Workers Party (PT), as well as leaders of other parties in the government coalition, public servants and business moguls”.

Globo fails to mention that several members of the current political opposition to the Workers Party (PT) are also been implicated in Operation Car Wash. Aecio Neves, Rousseff’s defeated opponent in the last presidential elections, for example, was accused of receiving bribes and mentioned seven times in delations given by politicians and business men. The vice-president, Michel Temer, who has been orchestrating the coup himself in order to reach power, has also been cited. All of this can be easily verified, but Globo prefers to try keeping the readers in the dark, in order to construct the illusion that PT is the only party responsible for the corruption in brazilian institutions.

LIE 3: “The entire investigation process has been conducted in accordance with Brazil’s rule of law, under the strict supervision of the country’s Supreme Court”.

There have been serious violations of civil rights by the judge responsible for Operation Car Wash, Sérgio Moro, in collusion with the Globo Group itself, in order to inflame the masses and damage the image of Workers Party ex-president of Brazil, Lula. Sérgio Moro illegally leaked recordings of wiretappings placed in Lula’s residence to Globo, which then publicized selected parts of the audio in the network’s most rated news show. Apart from the fact that most of the conversations were personal and irrelevant to the investigation, the recordings caught a chat between Lula and the president of Brazil, Dilma Rousseff, and thus should have been immediately sent to the Supreme Court due to privileged forum. Instead, Moro sent them to Globo Group – but they don’t want anybody remembering that, do they?

LIE 4: “The Brazilian press in general, and the Globo Group in particular, fulfilled their duty to inform about everything, as would have been the case in any other democracy in the world. We will continue to do our job, no matter who may be affected by the investigation”.

The brazilian media in general, and specially Globo Group, is playing an important role in opposing the government systematically since Rousseff became president for the first time, in 2010 – actually, since Lula was president, and even before that, in 1989, when he lost the election to conservative and latter impeached Fernando Collor de Mello, after been deliberately harmed in a debate promoted by Globo. Members of the opposition involved in several corruption scandals, like “Trensalão” and “Máfia das merendas”, have been consistently spared by the oligarchic media of Brazil, which is controlled by something between 9 to 11 families with clear elitist interests. Brazilian media is famous all over the world for been extremely concentrated and devoted to conservative political forces. It also endorsed the military coup of 1964. Need I say more?

LIE 5: “As a reaction to the revelations of Operation Carwash, millions of Brazilians took to the streets in protest”.

The protests in Brazil are been deliberately stimulated by the media and the political opposition since Rousseff’s reelection, in 2014. Although there have been rallies in 2013, promoted by popular left-wing movements, the current protests are very, very different. They are financed by right-wing organizations like “Movimento Brasil Livre” and “Revoltados On-line”, which were created to promote the coup we see taking place in Brasil today, and also by corporate organizations, like Fiesp (Federation of São Paulo Industries).

There’s no doubt some of the protesters are going to the streets spontaneously, but it’s also clear the role that this artificially created movements and the oligarchic media have been playing in promoting them and in creating, among the masses, a hate feeling against PT and all left-wing social movements. Globo wants to make believe “the people” suddenly took the streets moved by a sense of citizenship and morality. But here in Brazil we know the political climate was been built since Rousseff displeased the conservative forces by becoming president again.

LIE 6: “Precisely to avoid any accusations of inciting mass rallies – as Mr. Miranda now accuses us – the Globo Group covered the protests without ever announcing or reporting on them on its news outlets before they happened. Globo took equal measures regarding rallies for President Dilma Rousseff and against the impeachment: it covered them all, without mentioning them prior to them actually taking place, granting them the same space as was given to the anti-Dilma protests”.

The coverage of the protests have been absurd, to say the least. For starters, Globo has been calling the pro-impeachment protesters “brazilians” or “Brazil”, while the protesters against the coup – many of them critics of Rousseff’s administration – are “pro-government” or “Dilma’s supporters”. But that’s just a detail. All the protests for the impeachment have been 100% televised live by GloboNews (the network’s cable news channel), that interviewed protesters and made sure to set a cheered climate. On the other hand, protests against the impeachment were covered by short superficial flashes and usually did not listen to the protesters arguments. No news here when it comes to Globo.

LIE 7: “The Globo Group did not support the impeachment in editorials”.

That’s the most absurd lie on the entire article, because it’s enable to survive a simple Google search. Just type “impeachment”, “editorial” and “O Globo” and have fun!

LIE 8: “To blame the press for the current Brazilian political crisis, or to suggest that it serves as an agitator, is to repeat the ancient mistake of blaming the messenger for the message”.

Globo knows it has been promoting hate and conflict among brazilians. And that’s, actually, exactly what they want: to create a sense of general dissatisfaction that “justifies” a coup.

Just stop lying already! It’s starting to get embarrassing.

LIE 9: “The Brazilian press is a vast and plural landscape of several independent organizations, 784 daily printed newspapers, 4,626 radio stations, 5 national television broadcast networks, 216 paid cable channels and another multitude of news websites. Everyone competes with great zeal for the Brazilian audience, which in turn is free to make its choices. Among strong competitors, what one finds is independence, without any tolerance for being led”.

If less than a dozen families controlling the entire media is not been concentrated, I don’t know what is. Another lie that collapses on itself after a basic Google search. But if you want something more reliable, what about a research published by Oxford? Enjoy!

LIE 10: “With the Globo Group rests the responsibility to report the facts as they happened. It is our duty”.

In  Brazil, that’s what we can call “cereja do bolo”: a bizarre ending to an absurd article. Simply amazing.

É o mercado, estúpido!

Não é a classe média. Não é o povo. Não é a oposição. É o Mercado.

Pato José Cruz_Agência Brasil

O declínio do Estado diante do mercado vem sendo anunciado por pensadores já há algumas décadas – na verdade, Marx e Engels já o previam, de certa forma, em 1848, quando identificaram o “papel revolucionário” da burguesia. A estrutura descentralizada e tecnológica das forças produtivas da atual fase do capitalismo tornou o capital fluido, transnacional, invisível e impassível de efetivo controle por parte de governos. Aos Estados nacionais resta, portanto, buscar parcerias com esse Mercado (agora com merecida letra maiúscula), na tentativa de alinhar seus próprios interesses com os dos grandes conglomerados econômicos – uma espécie de ganha-ganha duvidoso, pois sabemos que alguém sempre tem que perder.

A assimétrica “parceria” Mercado-Estado pode até funcionar relativamente bem – com as devidas ressalvas, é claro – em países desenvolvidos ou com alguma tradição ideológica neoliberal, como os Estados Unidos (o país do livre mercado e do self-made man). Nesses casos, em que são menos necessárias ou demandadas transformações sociais profundas, as exigências do Mercado são capazes de conviver com as instituições do Estado Democrático de Direito em relativa paz. Aqui, a solidez e a previsibilidade de um sistema político maduro trabalham a favor do Mercado, pois garantem um ambiente estável para os seus negócios.

Por outro lado, a situação dos países periféricos, em especial a das socialmente desiguais e jovens democracias latino-americanas, é bem diferente – e o Brasil não é exceção. A fragilidade das instituições, ainda em processo de consolidação após longo período ditatorial, e a não coincidência entre os objetivos do Mercado e os de governos impelidos por quadros sociais caóticos a buscar a melhor distribuição da riqueza promovem um constante e perene conflito no cenário político latino-americano.

Esse conflito ficou claro no Brasil quando o país elegeu, em 2002, seu primeiro presidente de esquerda pós-redemocratização. A partir da Carta ao Povo Brasileiro, Lula não traiu voluntariamente seus companheiros de luta em busca de um “projeto de poder” para o Partido dos Trabalhadores. Ele fez, na verdade, o que foi necessário para sobreviver. Para não ser, já naquele primeiro mandato, devidamente expurgado da política. Teve duração de 12 anos, no entanto, a sobrevida de um governo que conciliou demandas sociais com as necessidades do Mercado, e a crise de 2012 tratou de sepultar a agonizante parceria.

Neste momento, no cenário brasileiro, o Mercado vê a oportunidade de ter mais cedo seus interesses integralmente atendidos. A deposição da presidenta Dilma Rousseff significará o início antecipado de uma “nova era” – a do governo amigo, dos cortes de gastos públicos (ainda maiores do que os promovidos pela própria petista na tentativa de conciliação com o Mercado), das terceirizações, das privatizações, da perda de direitos trabalhistas. E a subversão da ordem democrática agora pode ser feita sob o falso manto da legalidade, com a cooperação política de setores do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e da mídia oligárquica (ela própria integrante do Mercado). O golpe “legal” não é novidade para a América Latina – os casos do Paraguai e de Honduras estão aí para mostrar isso.

O quadro político no país não tem relação com a “guerra à corrupção”, chavão que a história elegeu como a tradicional bandeira dos governos ilegítimos ou autoritários. Na verdade, a relevância da corrupção neste contexto emerge apenas quando a observamos como um sintoma da promiscuidade existente entre Estado e Mercado. Também sabemos que a atual crise política brasileira não foi causada por uma “guerra de ideologias” ou pelo abalo de uma “cultura do privilégio” internalizada pelas classes médias, mas pelo Mercado, cobrando agora a conta por mais de uma década de concessões. Não é por acaso que o movimento de desestabilização das instituições democráticas é liderado por entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e que grupos econômicos brasileiros e estrangeiros financiem as estranhas organizações pró-golpe.

Não digo aqui que componentes da superestrutura – como ideologia e cultura – não estejam também em movimento no contexto político e social que vivemos. Mas é importante termos consciência de que a base – as relações materiais e a disputa pela riqueza – estão no cerne dos acontecimentos que hoje assombram o cenário nacional. O que assistimos no Brasil é um acirramento das contradições existentes, a priori, entre os interesses materiais do Mercado e os interesses materiais do Estado. O objetivo final do golpe em curso é pacificar esse conflito e garantir que o Estado passe a trabalhar a favor nas necessidades materiais do Mercado, ainda que contra seus objetivos originais e em detrimento do interesse público.

Infelizmente, nessa disputa a que estamos assistindo hoje, o Estado está perdendo.

Sugestão de leitura: A crise, a deposição de Dilma Rousseff e a fragilidade da democracia, por Flávia Birolli, professora da Universidade de Brasília

Ministro Arthur Chioro: ele sai, mas a saudade fica

O terceiro a gente nunca esquece.

Quando ele apareceu, fiquei desconfiada: “não vai superar o anterior”. Talvez porque, de fato, o segundo tenha sido muito bom também – apesar de ter me abandonado apressadamente, antes da hora, e por isso deixado um pouco de mágoa.

Cheguei ao Ministério da Saúde há cinco anos – foi no dia 15 do mês passado meu último aniversário nesse lugar que aprendi a amar. Parece pouco tempo, quando penso na totalidade da minha vida – cinco anos é só um sexto dela. Mas percebo que é muito quando lembro que chego agora a meu quarto ministro.

A pontinha de orgulho que sinto por ter vivido, assim tão de perto, muito do que foi feito pela saúde nesse país em tempos recentes se mistura com melancolia, quando vejo partir meu terceiro ministro – de longe o que deixa mais saudade.

Quando Chioro chegou, eu nunca tinha ouvido falar dele. “Bom sinal”, pensei. Um ministro desconhecido só pode significar menos politicagem (e mais política pública). Um ministro famoso geralmente está lá pra comprar apoio. E isso sei que o ministro Chioro nunca foi: sempre esteve aqui por sua competência, sua paixão, seus ideais.

“É nossa obrigação, como políticos de esquerda”. Arrepiei quando o ouvi dizer isso em um jantar em Santa Fé, berço do socialismo argentino. Nunca tinha ouvido um ministro se posicionar ideologicamente antes. E não espero ouvir novamente. Essas são aquelas coisas que muito raramente saem do imaginário daqueles que votam em partidos e políticos de esquerda – quando no poder, viram centro ou coisa pior.

Esse não. Por isso, foi o único que vi enfrentar publicamente as entidades médicas corporativistas, que tanto mal fazem à saúde de nosso país. “Querem o monopólio!”, ele disse em uma entrevista sobre as sociedades de especialidades médicas. Me lembro de pensar na hora: “Esse ministro ainda vai fazer muito estrago”. E fez – pena que por tão pouco tempo. Vai deixar saudade, mas deixou também sua marca e, sem dúvida, um exemplo para os próximos que vem por aí.

Que venha o quarto ministro! Superar o terceiro vai ser difícil… Mas eu já estive errada antes, não é mesmo?

A partir de 2015, o mundo se dividiu em dois: quem coloriu e quem não coloriu o avatar do Facebook

Caro internauta,

Caso você tenha colorido sua foto do Facebook com a bandeira LGBT– uma ação que leva menos de 20 segundos – nós gostamos de você. Você é legal, cara! Não faz diferença se nunca te vi falando nada sobre esse assunto, escrevendo nada, tomando posição. Agora eu sei que você é do bem. A chance de você ter mudado sua foto porque não gosta de ficar excluído dos fenômenos massificados do Facebook é zero. Quem faria isso? Precisamos é desse ativismo aí: conduzido por megaempresas norte-americanas de mídia. Precisamos de pessoas como você.

Agora, se você não coloriu sua foto, sinto informar: você é fascista. Vamos admitir, gente: quem não aderiu a essa campanha sensacional de marketing de uma corporação americana só pode odiar gays e ser preconceituoso. Na verdade, está mentindo quando se diz a favor da igualdade de direitos independente da orientação sexual, contra a heteronormatividade, a favor do casamento gay. Não tem vergonha na cara, seu mentiroso reacionário? Vá se juntar à direita! Não queremos você por aqui. Que absurdo não aderir a uma ferramenta tão bacana disponibilizada em uma rede social! E daí se for um experimento corporativo? Era só um clique, meu amigo. Não pode existir outra explicação para essa atitude desprezível sua: só pode ser fundamentalismo religioso, homofobia, medo de perder seus privilégios de heterossexual. Tá, se você é gay e também não alterou sua foto, tem preconceito contra si mesmo e está atrapalhando a causa. Por que diabos não coloriu essa merda de avatar, seu babaca? Eu sei o porquê: porque você odeia gays. E nós odiamos você.

Atenciosamente,

Uma esquerda muito estranha

“Casa do povo”. Só que não.

É muito triste perceber que nosso destino é mera moeda de troca nesse jogo de birras, vingancinhas, ressentimentos e interesses que se desenrola no Congresso Nacional. Isso sempre foi evidente, mas fica cada vez mais escancarado agora que temos uma oposição amargando a quarta derrota consecutiva nas urnas presidenciais e uma base aliada rebelde sentindo que pode controlar o governo. Tudo – absolutamente tudo – que se aprova ou rejeita nas duas Casas são isso, e somente isso: retaliação, demonstração de poder ou favor a ser cobrado mais tarde. Mas e o povo? “Ah, o povo que se foda, oras!”.

No início do mês, quase conseguiram derrubar um veto da Presidenta Dilma a subsídios para grandes empresas no Nordeste, o que oneraria o Tesouro em R$ 5 bi. Motivo: os presidentes das duas casas estão revoltados – vejam só – por terem aparecido na lista da Lava Jato, e acham que Dilma devia ter intervindo para evitar (leia-se: “acobertar”). Fizeram isso pra se vingar. O mais inacreditável é a naturalidade com a qual se encara isso – o assunto tá na mídia e os parlamentares nem ligam. Afinal, o que tem de mais em querer que a Presidente do país use de “jeitinho” pra livrá-los de investigação criminal?

Também ontem nossos digníssimos representantes transformaram o homicídio de policiais e militares (sim, militares) em crime hediondo. Não sei quanto a vocês, mas eu acho isso um assunto muito sério (e estranho). Cadê o debate com a sociedade? No mínimo, estamos diante de uma medida que tem como objetivo criar mais proteção para um lado que, constantemente, é o opressor e pratica excessos. “Bora tornar mais intocáveis autoridades armadas inseridas em ambientes corrompidos que têm o monopólio da violência de Estado”? “Bora”! Não vi esse assunto na mídia e não acho que as pessoas tenham sido consultadas quanto a isso, nem em enquete besta do site do Senado – eu, sinceramente, nem sabia que esse projeto existia. Afinal de contas, quais são as nossas prioridades?

[Isso ocorreu logo após o feminicídio ser tipificado como crime hediondo. Soou até como uma ofensiva a medidas destinadas a defender minorias e segmentos oprimidos. “Ah, é? As vadias querem que “assassinar mulher por ela ser mulher” seja um crime assim, todo especial? Então tá. Pois agora matar policial também é”. Bolsonaro deve estar que nem pinto no lixo.]

Mas essa semana dois senadores ultrapassaram todos os limites do egoísmo e da indiferença quanto aos interesses da população brasileira. Cássio Cunha Lima e Aloysio Nunes, ambos do PSDB, resolveram submeter um projeto de decreto legislativo com o objetivo de invalidar a cooperação que permitiu trazer mais de 11 mil médicos cubanos ao Brasil para atenderem populações carentes.

Tá, eu até entendo ter a cara de pau de melar o ajuste fiscal da Presidenta dando prejuízo aos cofres públicos, querer ter a cara livrada da Lava Jato e priorizar projetos de defesa dos integrantes das forças bélicas e repressivas do Estado – tudo isso era esperado desse Congresso sensacional que elegemos ano passado. Mas confiscar, de 63 milhões de brasileiros, o atendimento dos únicos médicos que se indignaram a chegar até eles é cruel e desumano. Uma ideia, senadores: que tal fazermos disso crime hediondo?

O Congresso Nacional carece de ideias, de ideologia verdadeira, de empatia para com as pessoas que dele dependem para se fazer representar na esfera pública. Em debates que se resumem a bate-boca entre parlamentares com interesses eleitorais e pessoais conflitantes, o interesse público fica apagado, esquecido. Que tipo de sociedade queremos construir, quais medidas precisamos tomar para tornar nosso país mais justo, sustentável e solidário – tudo isso é absolutamente irrelevante. Já tivemos inúmeras demonstrações disso.

Em nome da rivalidade política, os senadores Aloyísio Nunes e Cássio Cunha Lima não se importam de ter sangue em suas mãos, desde que isso signifique acabar com um dos “programas-vitrine” do governo de seu adversário. Nossos parlamentares vivem em um mundo à parte, onde só existem eles mesmos, seus próprios umbigos, e talvez suas esposas, que por pouco não passaram a ter suas passagens pra Miami pagas com dinheiro público. Cid Gomes tem razão: “são achacadores”!

Atualização em 10/04/2015:

O parlamento continua suas estripulias. A “casa do povo” aprovou ontem o que o sociólogo do trabalho Ruy Braga chamou de “a maior derrota popular desde o Golpe de 64”: o PL da terceirização. Supimpa. Somemos a isso a aprovação da PEC da redução da maioridade penal pela CCJ. Mais alguém aí está com medo do resto desse mandato? Pelo menos enquanto Eduardo Cunha for presidente da Câmara, ou seja, por mais pelo menos 1 ano e 8 meses, não duvido de mais nada.